O relógio marcava quase três da manhã quando Matteo finalmente chegou em casa. O corpo ainda exalava o cheiro do champanhe da festa, e o cabelo impecável começava a perder um pouco do penteado perfeito. Ele jogou o casaco sobre a cadeira da entrada sem perceber que a casa estava estranhamente silenciosa.
Letícia não estava lá. Nem no quarto, nem na sala. Matteo ergueu uma sobrancelha, mas não deu muita importância. Talvez estivesse dormindo ou em algum compromisso pessoal, pensou, distraído demais para se importar.
Ele caminhou até o banheiro, tirando a gravata e ajustando a roupa, pensando no dia seguinte. Trabalho, reuniões, negociações… a vida sempre seguia para Matteo como uma linha reta, sem desvios.
— Senhor Matteo? — chamou a voz da empregada, entrando discretamente.
— Sim? — respondeu ele, sem parar de se despir.
— A senhora Letícia passou mal e foi ao hospital.
Matteo parou por um instante, arqueando uma sobrancelha, antes de revirar os olhos.
— Hospital? — disse, como se fosse apenas mais um detalhe insignificante. — Tsc, ela sempre arruma algum problema.
A empregada permaneceu em silêncio, sem saber como reagir à frieza do patrão. Matteo passou os dedos pelos cabelos, suspirando impaciente, como se a notícia fosse apenas um ruído irritante em sua rotina.
— Tudo bem, obrigado por avisar.
A empregada sentiu um aperto no peito ao pensar em sua patroa, mas sabia que não havia nada que pudesse dizer. Matteo sempre fora assim: indiferente, frio, incapaz de enxergar o esforço e a dedicação de Letícia, por mais que ela tentasse agradá-lo e ser a esposa perfeita.
Sem dizer mais nada, a empregada se retirou, deixando Matteo sozinho no silêncio da casa. Ele se recostou na poltrona do closet, a mente ainda enevoada pelo álcool da festa. A noite, que começou como uma simples comemoração de negócios, rapidamente se transformara em um borrão de bebidas e risadas forçadas. Cada gole parecia empurrar para longe qualquer resquício de consciência.
Matteo fechou os olhos por um instante, recordando vagamente a música alta, os brindes e algumas conversas que mal conseguia reconstruir. A sensação de controle e poder ainda dominava seus pensamentos, e a ideia de que Letícia estivesse no hospital parecia irrelevante, apenas mais uma nota de rodapé em sua vida perfeita e autocentrada.
Ele se levantou e foi até a cozinha pegar um copo de água, passando pela cama bagunçada.
— Nem pra isso ela serve — murmurou para si mesmo.
Leia nossa outra novela: “O Veneno da Rosa“.
Assista os capítulos em nossas redes sociais: Tiktok e Instagram.

Deixe um comentário