O Casamento de Vidro – Capítulo 1

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Capítulo 1 – O vestido perfeito

O Casamento de Vidro começa com um casamento perfeito… mas nada é o que parece. Neste romance dramático e intenso, Helena descobre que sua vida pode estar baseada em mentiras perigosas.

vestido de casamento branco, noiva de costas, véu.

O vestido deveria ser leve. Foi o que disseram quando o escolheram, passando os dedos pelo tecido como se ele fosse mais uma promessa do que uma peça de roupa. Ainda assim, enquanto observo meu reflexo no espelho, sinto como se cada detalhe dele me puxasse para baixo, como se o peso não estivesse na renda ou nas camadas cuidadosamente sobrepostas, mas em tudo aquilo que ele representa.

A mulher diante de mim está impecável. O cabelo preso com delicadeza, a maquiagem suave, os olhos levemente destacados, uma noiva como tantas outras que já vi em fotos, sorrindo como se o mundo inteiro tivesse finalmente se encaixado. Há algo de estranho em perceber que essa mulher sou eu, porque, por dentro, nada parece encaixado. Existe apenas uma inquietação persistente, difícil de nomear, que não chega a ser medo, mas também não se parece com felicidade.

— Você está linda — diz a maquiadora, com um sorriso satisfeito.

Agradeço com um aceno leve, sem confiar muito na minha voz. Linda. A palavra fica no ar por um instante, como se esperasse que eu a aceitasse. Talvez eu devesse. Talvez fosse mais fácil se eu simplesmente me permitisse acreditar que aquele era o dia mais feliz da minha vida.

Hoje eu me caso com Sebastián Villalba.

O nome ecoa dentro de mim com uma solidez que não é minha. Sebastián não é apenas um homem; ele é uma ideia, um sobrenome que abre portas antes mesmo de ser pronunciado. Desde o início, tudo ao redor dele sempre pareceu grande demais, os espaços, as decisões, as expectativas. E, ainda assim, quando ele me escolheu, ninguém questionou. Pelo contrário. As pessoas sorriram como se aquilo fosse inevitável.

Como se fosse um privilégio.

A porta se abre com cuidado, e minha mãe entra, segurando as próprias mãos com uma firmeza que denuncia mais do que qualquer lágrima poderia. Ela me observa por alguns segundos, absorvendo cada detalhe, como se tentasse guardar aquela imagem para si.

— Está na hora — diz, com a voz baixa.

Dou um pequeno aceno, mas não me movo imediatamente. Há algo no olhar dela que me prende, uma hesitação que não costuma existir entre nós.

— Você tem certeza? — ela pergunta, quase num sussurro.

A pergunta não deveria me afetar tanto. É simples, direta, e ainda assim parece abrir um espaço incômodo dentro de mim, como se tocasse exatamente naquilo que venho evitando pensar. Eu poderia responder com facilidade. Poderia sorrir, dizer que sim, que estou feliz, que é claro que tenho certeza. Mas a verdade não é tão organizada assim.

Por um instante, penso em dizer que não sei.

Em admitir que existe algo errado, mesmo que eu não consiga explicar o quê.

Mas, quando volto a olhar para o espelho, aquela versão perfeita de mim ainda está lá, esperando. E eu sei que, a partir daqui, tudo depende dessa resposta.

— Tenho — digo, por fim.

Minha mãe me observa por mais um segundo, como se avaliasse não apenas as palavras, mas o que existe por trás delas. Depois, assente devagar, aceitando, ou decidindo aceitar, o que eu disse.

O caminho até o salão parece mais longo do que deveria. A música já começou, suave, preenchendo o espaço com uma sensação de expectativa que não consigo acompanhar completamente. Cada passo que dou é medido, não por hesitação visível, mas por uma consciência estranha de que estou atravessando um limite silencioso.

Quando as portas se abrem, a luz me envolve primeiro, seguida pelos olhares. Há algo quase sufocante em ser observada por tantas pessoas ao mesmo tempo, como se cada uma delas estivesse esperando ver a confirmação de algo, beleza, felicidade, certeza. Eu sorrio, como aprendi a fazer, e isso parece ser suficiente.

Então eu o vejo.

Sebastián está à minha espera, exatamente como deveria estar. Elegante, imóvel, perfeitamente adequado àquele cenário que parece ter sido construído ao redor dele. Ainda assim, há uma distância no seu olhar que não combina com o momento. Ele não sorri, não se inclina, não demonstra nada além de uma atenção silenciosa que me percorre como um exame cuidadoso.

Sustento o olhar por um segundo a mais do que gostaria, tentando encontrar algum sinal, qualquer sinal, de que aquilo também significa algo para ele.

Não encontro.

Continuo andando.

A música cresce, os passos seguem, e, quando finalmente paro diante dele, sinto o contraste imediato entre nós. Minhas mãos estão quentes, levemente trêmulas. As dele, quando me tocam, são frias e firmes, como se não houvesse espaço para variação.

O padre inicia a cerimônia, e as palavras seguem o curso esperado. Amor, compromisso, futuro. Eu escuto, mas não absorvo completamente. Há uma parte de mim que permanece atenta a outra coisa, à maneira como Sebastián segura minha mão, à ausência de qualquer gesto espontâneo, à sensação de que estamos representando algo que já foi decidido muito antes de chegarmos ali.

— Adrian Villalba, aceita Helena Duarte como sua esposa?

O silêncio que se segue é breve, mas suficiente.

Eu o sinto antes mesmo de perceber sua duração. É um intervalo pequeno demais para ser notado por todos, mas longo o bastante para que algo dentro de mim se contraia. Sebastián não responde imediatamente. Seus olhos se voltam para mim com uma intensidade diferente, mais direta, como se estivesse avaliando não apenas a pergunta, mas tudo o que vem com ela.

Há um instante em que penso que ele não vai dizer nada.

E, de forma estranha, quase imperceptível, algo dentro de mim se prepara para isso.

— Aceito.

A palavra vem firme, sem hesitação aparente, mas o atraso permanece, como uma sombra que não desaparece completamente.

Quando chega a minha vez, percebo o quanto minha resposta já foi definida antes mesmo de eu abrir a boca. Não há espaço real para dúvida naquele momento, não com todos olhando, não com tudo já em movimento.

— Aceito.

Os aplausos surgem quase imediatamente, preenchendo o espaço com uma energia que não consigo acompanhar. Sebastián se aproxima, e suas mãos seguram meu rosto com uma precisão que parece ensaiada. O beijo que se segue é correto, breve, suficiente para satisfazer o olhar dos outros.

Mas não há calor.

Quando ele se afasta, seus dedos permanecem por um segundo a mais no meu queixo, pressionando levemente, como se marcasse um limite invisível. Em seguida, inclina-se na minha direção, aproximando os lábios do meu ouvido.

De fora, deve parecer um gesto íntimo, quase carinhoso.

Mas a voz dele não carrega nada disso.

— Ainda dá tempo de fugir.

Por um instante, não sei exatamente como reagir. Meu corpo permanece imóvel, o sorriso ainda no lugar, enquanto as palavras se acomodam lentamente dentro de mim, deslocando tudo o que eu achava que entendia até então.

Viro o rosto com cuidado, como se procurasse alguém na multidão, tentando recuperar algum ponto de apoio. É então que a vejo.

Ela está do outro lado do salão, entre os convidados, perfeitamente à vontade naquele espaço que ainda parece estranho para mim. Elegante, segura, observando tudo com uma atenção tranquila demais para alguém que deveria ser apenas mais uma espectadora.

E sorrindo.

Não um sorriso qualquer, mas aquele tipo de sorriso que não precisa se explicar, porque já sabe mais do que deveria.

É nesse momento que compreendo, ainda que de forma incompleta, que há algo acontecendo ali que não me foi dito.

Algo que não começou hoje.

E que, de alguma forma, me envolve mais do que deveria.


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