Entre Poder e Vingança – Capítulo 2

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Letícia ainda estava deitada, com o celular caído sobre o peito, quando ouviu a porta se abrir lentamente. A luz do corredor recortava a silhueta de um homem alto, elegante, com postura firme e expressão séria.

— Senhora Valença? — disse ele, com voz baixa, mas autoritária.

Letícia estreitou os olhos. 

— Quem é você?

— Meu nome é Marcelo Antunes. — Ele deu um passo à frente, colocando uma pasta sobre a mesa de cabeceira. — Sou advogado de sua tia-avó, Dona Beatriz Duarte.

Letícia arqueou uma sobrancelha, confusa.

— Tia-avó? Eu… nunca ouvi falar dela.

Marcelo assentiu, sério. 

— Ela era uma mulher reclusa, mas muito poderosa. Recentemente, ela faleceu e deixou uma herança significativa para você. Você é a única herdeira.

Letícia sentiu o corpo estremecer. Herança? Fortuna? Agora, misturado à dor da perda do bebê e à traição de Matteo, algo novo crescia dentro dela — um poder inesperado, uma chance de virar o jogo.

— Por que ela me deixou tudo? — perguntou, a voz ainda trêmula, mas curiosa.

— Ela nunca teve filhos e você é a única que resta do lado da família dela. Ela era irmã de seu avô materno. 

Letícia fechou os olhos por um instante, tentando assimilar a informação. Uma tia-avó que ela nunca conhecera, uma herança inesperada. Tudo parecia surreal, mas, ao mesmo tempo, despertava nela uma sensação de possibilidade. Pela primeira vez, sentiu que não precisava mais depender de Matteo ou de qualquer outro.

Ela não tinha mais família. Nunca conheceu seu pai, um estrangeiro com quem sua mãe tivera um caso breve. De acordo com a mãe, ela nunca perguntou o sobrenome dele, então não tinha como saber quem ele era. E sua amada mãe, sua melhor amiga, morreu há oito anos de câncer. O pior dia da vida dela. Seus avós também morreram cedo, então ela não tinha ninguém na vida além de Matteo. 

Uma triste constatação. 

— O que eu preciso fazer? — perguntou, a voz ainda trêmula, mas carregada de curiosidade e determinação.

Marcelo sorriu educadamente. 

— Apenas assinar alguns documentos. Dona Beatriz possuía muitos bens. 

Letícia engoliu em seco. Cada palavra dele parecia acender uma faísca dentro dela. Não era apenas uma chance de recuperar o controle de sua vida, mas também de se vingar de quem a havia traído.

Por anos ela ficou com Matteo, sendo praticamente um capacho para ele enquanto ele ignorava sua existência. Ela não sabia se ele já havia a traído, mas não se surpreenderia se fosse esse o caso. 

— E você vai me ajudar nisso? — perguntou ela, firme, sem medo de mostrar a determinação recém-descoberta.

— Posso orientá-la legalmente e ajudá-la a proteger o que é seu — respondeu Marcelo, sério. 

Ela olhou para o envelope em suas mãos, repousando em cima do ventre plano. Seus olhos encheram de lágrimas novamente ao se lembrar do bebê que tanto almejara. Um fruto de seu amor por Matteo. Mas, como tudo em seu relacionamento, aquilo também fora destruído. 

Letícia respirou fundo, tentando conter a mistura de dor e raiva que a consumia. Por anos, ela se dedicara totalmente a Matteo, sacrificando sua carreira, sua liberdade, até seus próprios sonhos, enquanto ele a ignorava, muitas vezes com indiferença cruel. Agora, com o bebê perdido e a traição mais evidente do que nunca, algo dentro dela despertava; uma força que não sentia há muito tempo.

— Isso não vai me destruir — murmurou para si mesma, acariciando o envelope com delicadeza, como se fosse a chave para uma nova vida.


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