A Armadilha de Isadora
O vento frio da tarde agitava as cortinas do café à beira-mar, trazendo consigo o cheiro salgado do oceano.
Isadora piscou rapidamente, e, de repente, um brilho oportunista cruzou seus olhos. Em questão de segundos, ela se transformou. A postura firme deu lugar a um tremor calculado, e a voz, antes venenosa, agora soava frágil e trêmula.
— Por favor, Letícia… não me trata assim… — ela sussurrou, alto o bastante para que o paparazzi registrasse cada sílaba.
Letícia franziu o cenho, sem entender de imediato o que estava acontecendo. Então, ao ouvir o som inconfundível de um clique, ela se virou. Foi nesse momento que percebeu o fotógrafo escondido, com a lente voltada diretamente para as duas.
O jogo da encenação
Em seguida, Isadora levou as mãos ao rosto, fingindo enxugar lágrimas que não existiam.
— Eu só… só quis ajudar! — dramatizou, com a voz embargada. — Você não precisava me empurrar assim…
Aos poucos, as pessoas nas mesas próximas começaram a virar o rosto, curiosas. Enquanto isso, o som dos cliques aumentava, multiplicando-se como uma chuva de flashes invisíveis.
Letícia respirou fundo, tentando controlar o impulso de responder à altura. Ela sabia exatamente o que Isadora estava fazendo. Afinal, qualquer palavra dita naquele momento poderia ser distorcida, ampliada e espalhada pelos portais de fofoca antes mesmo que a noite caísse.
Com um olhar de puro desprezo, Letícia deu um passo para trás. Logo depois, endireitou os ombros e falou com calma — a calma perigosa de quem aprendeu a dominar o próprio fogo:
— Cuidado com o papel que escolhe interpretar, Isadora. Às vezes, o público começa a acreditar na mentira, mas quando descobrem a verdade, a queda é bem maior.
Então, ela se virou e saiu. O som de seus saltos ecoou pelo piso de madeira do café, marcando o fim da encenação.
Assim que Letícia desapareceu pela porta, Isadora suspirou — ainda fingindo fraqueza. Porém, por dentro, sorria.
Ela sabia que, dentro de poucas horas, aquelas fotos estariam em todos os sites.
“Esposa do CEO da Valença Corp. humilha funcionária em público.”
Era o tipo de manchete perfeita para reacender o fogo da vingança.
Enquanto ajeitava os cabelos e deixava o café, o fotógrafo mostrava o visor da câmera, satisfeito.
— Conseguiu boas imagens — ela disse, com um sorrisinho de triunfo. — Quero as melhores divulgadas ainda hoje.
O homem assentiu, já guardando o equipamento e desaparecendo entre os transeuntes.
Do outro lado da rua, porém, uma figura dentro de um carro preto observava atentamente toda a cena.
Era Matteo Valença.
Os olhos dele, escuros e frios, acompanharam Letícia se afastando. Enquanto isso, o maxilar travado e o punho cerrado sobre o volante denunciavam o turbilhão interno que ele tentava conter.
Ele não sabia ainda, mas estava prestes a enfrentar uma tempestade — uma que destruiria tudo o que acreditava controlar.
🔗 “Leia também: Entre Poder e Vingança – Capítulo 9: O Encontro no Café”

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