A Exposição
O celular de Letícia vibrou pela terceira vez em menos de cinco minutos. Inicialmente, ela o ignorou, ainda com o gosto amargo do encontro com Isadora preso na garganta. No entanto, quando o aparelho começou a apitar sem parar, ela percebeu que aquilo não era mera coincidência.
Com um suspiro cansado, pegou o telefone e viu a tela tomada por notificações — mensagens, menções, links. Havia recados de familiares, de amigas antigas e até de pessoas que ela mal lembrava.
“Lê, isso é verdade?”
“Você está bem?”
“Que baixaria! Olha o que estão dizendo de você!”
O peito apertou imediatamente. Com as mãos levemente trêmulas, ela tocou no primeiro link.
A manchete apareceu enorme diante de seus olhos:
ESPOSA DO CEO DA VALENÇA CORP. HUMILHA FUNCIONÁRIA EM PÚBLICO.
Logo abaixo, a foto congelava o exato momento em que Letícia estava de pé, séria, encarando Isadora. Na imagem, Isadora tinha a mão no rosto, a expressão falsamente desesperada, como se tivesse sido atacada.
Letícia sentiu o estômago revirar.
— Suja… — murmurou. — Você é suja mesmo, Isadora.
Ela deslizou o dedo pela matéria. O texto era um desfile de distorções: “testemunhas” anônimas afirmando que ela perdera o controle, que gritara, que ameaçara a “pobre funcionária”. Naturalmente, nenhum trecho mencionava que Isadora aparecera sem ser chamada, que provocara e que planejara tudo desde o início.
Como sempre, a versão mais dramática era a que vendia.
Nesse momento, o telefone começou a tocar. Era sua mãe.
Letícia fechou os olhos por um segundo antes de atender.
— Oi, mãe.
— Letícia, pelo amor de Deus! — a voz aflita de Dona Helena veio alta, quase estridente. — O que está acontecendo? Eu abri a internet e só vejo seu nome! Dizem que você agrediu uma moça, que fez escândalo… Isso é coisa que se faça?
Letícia começou a caminhar pelo apartamento, tentando manter a calma.
— Mãe, eu não agredi ninguém. Foi armação. Ela fingiu que estava chorando, chamou paparazzi… montou a cena todinha.
— Armação ou não, o mundo não quer saber dos detalhes, menina! — suspirou Helena, cansada. — Você sabe como são com ricos, com famosos… com gente como o Matteo. E isso tudo cai é em cima de você.
A menção ao nome dele fez o coração de Letícia perder um compasso.
— Ele já viu?
Houve uma breve pausa.
— Imagino que sim. Essas notícias correm rápido. E sua… sogra… — a voz falhou ao lembrar que o divórcio já estava em andamento — sempre teve jornalista na palma da mão.
Um arrepio percorreu Letícia. Era verdade. Se Isadora queria causar uma explosão, bastava acionar a pessoa certa. E ninguém era mais eficiente nisso do que a senhora Valença, sempre obcecada com a imagem da família.
— Mãe, depois a gente conversa, tudo bem? — disse Letícia, esforçando-se para manter a voz firme. — Só… não acredita em tudo o que você lê.
— Eu conheço minha filha — respondeu Helena, mais calma. — Mas o mundo não. Se cuida, tá?
— Vou tentar.
Ela desligou, respirou fundo e lutou contra a sensação de asfixia.
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